domingo, 24 de julho de 2011

Diário de um Lobisomem ( conto )




I




Meu nome, Lebau Ninda.
Tudo começou numa terça-feira à noite, estava um calor horrível, meu pai depois de jantarmos, decidiu ir comigo dar um passeio enquanto o calor nocturno pernoitava. Nessa noite era véspera de meu aniversário, tinha treze anos. 
Chegámos perto da margem do, Mississípi, nenhum barco passava.

- Toma, é para ti.
- O que é?
- Desembrulha.

- Uau, uma cana de pesca, deve ter custado uma fortuna!
- Tu mereces, Lebau. Agora enfia a linha e trata do resto, quero ver o teu primeiro lançamento.

Tinha uma lágrima de felicidade estampada na minha face, pois éramos pobres e sabia o quanto era difícil comprar fosse o que fosse.

- Entra um pouco mais dentro do rio, água pela cintura e faz o teu lançamento, filho.
- Assim?
- Isso mesmo, fica aí e não te afaste mais.




- Apanhei, apanhei um!
- Vem, depressa.


Ao aproximar-me de meu pai, uma criatura aparece por detrás e salta-lhe para as costas, mordendo-o repetidamente...




- Foge, Lebau, foge, fo...

O seu grito foi silenciado pela boca do animal, e eu, entrei em pânico e não me consegui mexer, não fiz nada para impedir a morte de meu pai, caí de joelhos e tombei para o chão...
Não me lembro de mais nada dessa noite, só sei que acordei com uma marca feia no ombro...e desde aí que a minha vida mudou.

A minha mãe piorou desde que o enterrámos, foi muito pesado para ela. Mais tarde peguei-lhe uma febre que não lhe deu tréguas, um mês depois enterrei-a junto de meu pai.

Uma família amiga tomou conta de mim, levou-me para uma herdade de gente rica. Nessa altura o trabalho nos campos prosperava, havia sempre espaço para mais um ou dois trabalhadores, lá as condições de vida eram bem melhores do que as da quinta onde nós estávamos. Mas nem tudo eram rosas...


Actualmente tenho vinte anos. A vida na herdade tem sido boa, consegui ultrapassar o trauma através da ajuda de colegas de trabalho que se tornaram meus amigos. Mas o sentimento de perda continua dentro de mim, bem como o que me tem acontecido desde então...



Esta manhã acordei com uma enorme dor de costas, ainda nem tinha aberto os olhos, estava mesmo desconfortável naquela posição. Abri a pestana e reparei no que estava à minha volta, o celeiro, merda.

Algo estava a magoar-me, levantei-me e reparei que a cor da minha pele negra estava toda imunda...

...era sangue.

Completamente nu, viro-me para trás e observo o objecto que me magoava, era uma cabeça de bode com uns cornos do tamanho de ramos de dois palmos e meio. As pontas apontavam para a lua como se isso tivesse algum significado...ainda confuso, olho para as minhas mãos e chego à conclusão que a maldição voltou ...

Enquanto estava envolvido nos meus pensamentos, as danadas das galinhas que por lá andavam, começavam a fazer barulho e, de imediato, apercebi-me do alarme, o que fez com que me pusesse a andar nas horas antes que, Wisten, mais conhecido como " Chibatas " me descobrisse e me desse um tiro.


Wisten, era o capataz, aquele filho da mãe detesta-nos, arranja sempre maneira de nos prejudicar. Muitas vezes somos castigados sem razão nenhuma...às vezes, Wisten, pega numa negra e leva-a para a barraca dele passando lá a noite e nem o patrão sabe, mas eu sei...


Lá fui eu todo nu em pelota de volta para o barracão, junto dos meus amigos e colegas de trabalho que ainda estavam a dormir. 
Ao todo somos vinte e cinco negros, trabalhadores do campo, não ganhamos muito mas temos sempre refeições quentes e de borla. Nosso patrão cuida de nós. 





II






- Quero todos fora da cama e já. Tudo lá para fora.


Acordei com a voz irada de, Chibatas, mas não foi isso que me deixou preocupado, mas sim o seu chicote que trazia na sua mão direita...


- Quem foi o filho ou filha de uma negra mal parida que matou o bode esta noite??


A tensão e medo entre os meus colegas era grande, alguns já com com lágrimas nos olhos respondiam com negação.


- Não lhes basta comerem à borla e ainda têm que roubar o patrão??
- Parece que tenho que vos incentivar, desgraçados.


Quim, começou a chicotear às cegas varrendo o peito e pernas dos meus colegas, passo-a-passo ignorando qualquer voz de dor.


- Ninguém foi? Parece que vou ter que usar mais da minha força.


Continuou a chicotear sem piedade, eu tinha que fazer alguma coisa, a culpa era minha...dei um passo e agarrei a ponta do chicote.


- Fui eu.
- Seu cão ingrato, ladrão. Estica os braços.


Foi então que, Chibatas, amarrou as minhas mãos e me levou até ao estábulo, de seguida, montou o seu cavalo e arrastou-me pelo chão até ao interior da floresta onde ele e o patrão costumavam caçar.
Já sem forças e ferido, fui amarrado a uma árvore...


- Vais ficar aqui o dia todo até eu decidir o que fazer contigo, desgraçado.


Ainda antes de se ir embora deu-me umas valentes chicotadas...


...ao fim da tarde oiço uns passos, o cheiro a fruta, o cheiro dela.


- Lebau? Lebau, sou eu, Álmina!
- Álmina...que faz aqui? Volte para trás...
- Nunca te abandonei, Lebau, nem mesmo quando os teus pais morreram. Jurei cuidar de ti. Bebe um pouco desta água e come esta fruta, filho. Trouxe uma faca para te soltar, afasta as mãos.
- Não, não me solte por favor, não quero meter mais ninguém em sarilhos, por favor.
- Mas ele vai dar cabo de ti, não posso.
- Por favor, não, confie em mim, não me solte.


Vi o olhar de sofrimento de, Álmina, olhando para mim como a minha mãe olhava.


- Como sabia que estava aqui?
- Já cá estive, e outros também...escuta, eu sei que não mataste o bode por maldade, mas sim por necessidade, tu és especial e terás de viver com essa maldição para sempre, um fardo que talvez venha a ser demais para ti...
- Não devia ter-se arriscado tanto, não quero que nada lhe aconteça.
- Foi hora de recolher do campo, agora tenho que voltar, filho. Que Deus olhe por ti e tenha piedade. Amo-te muito, Lebau.


Enquanto, Álmina se afastava, o som de um cavalo se aproximava...era, Wisten...


- Com que então vieste socorrer o desgraçado, sua rameira.
- Não, eu...


Wisten, saca do chicote e começa a chicoteá-la...


- Deixa-a em paz, o teu problema é comigo e não com ela.
- Cala-te desgraçado, aproveita bem o que podes ver agora, porque logo à noite, na minha barraca, Álmina será minha...quanto a ti, morrerás aqui, tiraste a vida ao bode, vais ver o que é tirarem-te a ti a vida. Mas antes, irei chicotear-te e deixar-te bem maltratado, é que os animais da noite gostam do cheiro a sangue fresco. 


Depois da risada seca de, Wisten, este amarra, Álmina, ao cavalo e, de seguida, começa a chicotear-me até eu perder os sentidos.






III







Acordei com as picadas de corvos a meus pés, a luz da lua brilhava sobre a minha cabeça, tudo estava nítido e os sons da floresta cada vez mais apurados.
As dores no meu corpo estavam presentes bem como as marcas deixadas por um chicote bem domado. Sabia que, Álmina, estava em apuros e tinha que fazer algo e depressa antes que fosse tarde demais.
Com todas as minhas forças, subi um pouco os braços, estiquei o peito para a frente e subi também um pouco as minhas pernas, repeti o processo várias vezes até ficar com folga à medida que a árvore ia ficando mais estreita. Consegui desatar o nó a muito custo e assim libertar-me.
Uma vez no chão, comecei a correr com alguma dificuldade em direcção à barraca do, Chibatas.


Abri a porta, à direita vejo, Wisten, sentado na cadeira a beber Whisky e a fumar. Do lado esquerdo no chão, vejo, Álmina, completamente nua e esvaziada em sangue.


- Não sei como conseguiste, mas parabéns, chegaste tarde para a festa.
- Que fizeste com ela??
- O que tinha de fazer, saciar a minha pila e despejar o meu suco dentro de uma rameira, não é isso que ela é?


Algo em mim estava a mudar, não só psicologicamente como também fisicamente...
Álmina, estava pálida, fria, inconsciente.


- Oferecia-te um pouco de Whisky para te aliviar a dor, mas já o bebi todo, estava cheio de sede depois de toda aquela luta que, Álmina, me deu. Ela sempre mexeu comigo, era asseada, não era como as outras que por aqui passaram...algumas delas nem se mexiam com tanto medo que tinham de mim. Também não me podia queixar.


Aquela gargalhada pesada de, Wisten, fez com que os meus olhos se fechassem e caí de joelhos...


O meu coração começa a falhar, bem como o resto dentro de mim, o corpo começa a contorcer-se e os gritos de dor ouvem-se cada vez mais altos devido aos movimentos dos ossos e órgãos internos, a voz cada vez mais pesada. Minha boca começa a sofrer alterações, pelas gengivas começam a surgir dentes afiados, o maxilar cada vez mais longo e a minha espinha toma outros contornos. Minhas mãos transformam-se em garras e o pêlo escuro começa a espalhar-se por todo o meu corpo...a transformação está completa...


Wisten, ainda sentado, está agora com a respiração ofegante,  falta de ar e a esfregar a mão no peito junto ao coração. Não consigo perceber o que diz em voz de sussurro trémulo, incapaz de falar.
Ataco-o por instinto, necessidade e raiva, ódio principalmente, mutilo o corpo e rasgo-o todo, esfregando por fim a minha face pelo que resta do, Chibatas...





 Pela primeira vez matei um homem, e soube-me bem cada gota, cada pedaço de carne daquele ser sem escrúpulos, vazio.


O meu uivo de satisfação ouve-se à distancia despertando curiosidade e alertando outros tantos. Tinha que tirar, Álmina, dali e levá-la para juntos dos colegas de trabalho para que tratem dela, assim o fiz, peguei no seu corpo e comecei a correr com toda a minha força sobrenatural até à porta, onde a deixei...


...fica bem, nunca hei-de te esquecer, minha mãe...


Oiço cães a ladrar e um tiro disparado para o ar, era o meu patrão.  


- Quem está aí??


Passo o nariz pela sua face sentindo o seu cheiro pela última vez e fujo, fujo para bem longe sentindo o ar fresco da noite por todo o meu corpo, o ar da liberdade...








- Hei, rapaz, acorda, estás a bloquear o caminho de toda a caravana.
Ainda por cima está nu! Vê-se com cada coisa hoje em dia!


Acordo com o som de cavalos à minha frente e com a voz de um homem a rir-se.


- Onde estou??
- Se não reparaste ainda, diria que no meio de um caminho que, por sinal, quer ser usado pela caravana do meu circo.
- Circo??
- Sim, nunca ouviste falar nos circos que aparecem nas cidades?
- Não.
- Bem rapaz, parece que não sais muito, não é assim?
- A minha vida sempre foi a trabalhar no campo, nunca fui a uma cidade.


Comecei a ouvir sons de animais que nunca antes tinha ouvido, totalmente desconhecidos, totalmente atraentes ao meu ouvido, e ao meu interior...


- Então é assim, pelo teu aspecto diria que foste assaltado, certo?
- Sim.
- Pois então, se quiseres trabalho, roupa e comida, que tal trabalhares para mim? Estou a precisar de alguém para ajudar a montar a tenda, e quem sabe mais tarde alimentar as feras, hein?
- Obrigado, aceito com muito gosto.
- Óptimo, vai à quarta carroça e fala com, Adónes, o guarda-roupa, ele irá arranjar-te algo para vestires e comeres, é que só de olhar para a tua pila já estou cheio de inveja...
- Muito obrigado, chefe.
- Chefe não, meu nome é, Foilari, do " Circo Foilari ". Chefe é dos índios meu caro, agora vai-te vestir antes que mude de ideias. Temos
um longo caminho pela frente até à próxima cidade.
- Sim, Sr. Foilari.
- Espera, como é o teu nome?
- Meu nome é, Lebau.
- Lebau? Que nome invulgar...pode ser que um dia tenhas o teu próprio número. Agora vai.


O número já eu sei qual é...



5 comentários:

  1. Hummm interessante.
    E para mim que adoro lobisomens melhor ainda
    =)
    Parabéns

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  2. O resto vem dia sim, dia não, é preciso agarrar o momento certo :P

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  3. Gostei do fim... inesperado mas mesmo assim inspirador

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