quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Estrela

Gostava de olhar para ti
Um qualquer dia destes
Tocar-te na face fria
Dar-te um beijo quentinho
Sentar a teu lado e ouvir-te falar
Coisas do dia-a-dia
Não interessa o tema
Deliciar-me contigo
Usar um pouco do meu tempo
Espaço útil de vida precioso
Para contemplar sem outra
Da tua espécie distante
Parar no tempo com a tua imagem
Dizer-te como és bonita
E voltar a carregar no botão Play

Uma cassete já velha e gasta
Uma memória límpida
Uma fruta madura e cristalina
Uma proeza do pó estelar

Porque o amor quando é verdadeiro não tem etiqueta com prazo de validade, tem sim um aperto no coração. Liberta-me...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Quadro Vivo

Pendurado numa árvore estava um pneu, um baloiço, sentado nele estava um anão, ele baloiçava, ele sorria e ria como uma criança, era deveras uma imagem colorida e movimentada nos meus olhos. Essa imagem no entanto carecia de alguém que impulsionasse aquele pequeno ser para a frente, mas por momentos ele esquecera tudo e concentrava-se no apoio materno daquele balouçar.
No quintal, aquela árvore impunha respeito não só pela sua altura mas também pela sua largura, como um forte elo familiar, algo de que o pequeno anão sentia falta. As memórias e a saudade atacavam-no agora, momento profundo da realidade com um grande pesar e tristeza.
O vento do Outono tocava-lhe nos cabelos como festinhas solidárias de lamentos, as folhas, essas, cobriam-no como uma manta em tons castanhos dando-lhe a forma de um casulo. Estava na hora do recolher e trouxeram-no para dentro, os remédios esperavam por ele.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Lanterna Projectora

Gostava de ter uma lanterna projectora, 
Rever momentos numa parede,
Citar palavras que me tocaram,
Reaver sentimentos que me moveram,
Recuperar o quente vermelho florescente,
Imagens de coisas e pessoas que ficaram para trás,
Albergar o tempo através de um piscar de olhos.

Mas nunca esquecer o porquê do que foram, salgadas, frias, incompletas...interrompidas.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Decílio

Sentado na cadeira da máquina estava, Decílio, este deu à chave e o motor soluçou uma e outra vez até que levou um pontapé, foi esse o empurrão que lhe faltava. A escavadora cumpria agora as suas funções e, Decílio, abre uma vala comum no cemitério das Júlias, alguém iria hoje preencher aquele novo quarto de seis metros de profundidade, sim profundo.
Mais um dia de trabalho passou mas, Decílio, esteve atento e chegara a hora do biscate, sabia que aquela vala comum tinha um cadáver com objectos pessoais de valor, como tal, a pá do bicho de metal começou a escavar ao comando do dono até que parou no seu ponto desejado. Decílio chegou-se à frente e meteu-se debaixo dos dentes de um braço erguido abrigando-se da chuva.
Havia algo de estranho naquela noite e um sopro tocou na alavanca deixando cair a pá em cima do crânio, esmagando-o... 


domingo, 25 de novembro de 2012

#5

As faces do dia por vezes conseguem ser tão expressivas que até assustam, como o rabo duro e frio da noite.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Sinister - Entidade do Mal (2012), de Scott Derrickson



O fim de semana passado fui ver este filme, trata-se de um filme de Horror que nos apresenta a história de um autor de romances policiais que descobre uma caixa cheia de misteriosos e perturbadores filmes caseiros, através destes a sua família mergulha numa aterradora experiência de horror sobrenatural. 
Ethan Hawke, a meu ver esteve muito bem no papel que desempenhou, a história é porreira e para quem gosta deste género de filmes recomendo a sua visualização. Dá para apanhar uns sustos e dar uns pulos da cadeira ;)




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sr. Juizzze

De soslaio apontas o olho para mim como quem não quer a coisa, eu ignoro-te com a certeza de um querubim que não chora mas que queima sem derreter. Serei plácido até o demónio do azedo libertar as cigarras entoando assim o ruído pavoroso do teu rosnar.
Pequena libélulazinha, que linda que és, um perfeito conjunto de letras contidas provocadas por um sonoro tiro na lápide, bum. O excesso de confiança liberta-te de pontos já polidos pelo desgaste da fronteira negativa do opaco em uníssono com as vozes da tua zona interna de cucos, que paródia tão vulgar minha pequena obtusa.
A mente brinca ao som de nuvens a surfar os céus em entrelinhas, como Deus a desgostar os fieis a quem tanto lhe devotaram tempo e esperança, desiludidos. Venha, venha a nós Sr. Juizzze, daí-nos o palavreado da coragem e do saber e fazei de nós cães com sardas nas patas e chamai-lhes sinais da pele ou doenças, tanto me faz, tanto me aperta...


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Tenro Assobio

Por vezes a partilha torna-se difícil, as corujas não se manifestam e o miolo envolto de saliva caí, assim se faz um murmurinho à volta dos que não sonham, dentro de um ninho confortável mas injusto, pois só crescem os mais fortes. Idealizar o que nos faz mover é por vezes tudo o que resta neste mundo piranha, devorados pelo sistema para nos fazer perder tempo, evitar o bom do outro lado da porta e deixar secar. 
A rotina ensina o lado visível da monotonia sem cerimonias, só lamentos disto e daquilo derivados da eletricidade que nos rodeia, esquecidos. Os astros têm pregado partidas à constelação, orientados pelo horário da sociedade, indivíduos solitários a bater com a cabeça nas paredes sujas do crime, miséria ressequida de um lobo franzino já sem dentes.
Esporadicamente, faz-se luz sobre uma cama de cartão impulsionada pela bondade reflectida por um búzio vazio a milhas de distância, sim é possível mesmo para aquelas que cacarejam insultos atrás de um muro de girassóis. Do outro lado da janela perscruta o medo, o escuro, ansiedade por uma trela solta, uma escapatória milagrosa com frutos à vista.
O sentido correcto é aquele que queima no candeeiro a óleo depois de umas velas frustadas, a chama já gorda não quer outra coisa senão consumir os olhos do utente, cansado e triste. Voa esperança, voa, voa que os teus olhos são lindos e quentes e não dão suspeitas a ninguém, e assim consomes o povo...

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Navegando em Ti

Ondas de lençol reabrem no mar
Na linha de água salpicos de ti
Pontos de tinta da china
Tocam-te nos seios hirtos
A sinalização a estibordo nota-se
Posição íntima revela nudez
O cargueiro penetra o porto
Gemidos cavernosos do teu remoinho
Limonada espumosa na rebentação
O fundo do mar mexe-se a teus pés
Abocanhas o norte da corrente
Gemendo e arranhando o costado
Engoles o caudal suavemente
Como pedaços de vidro colorido
Deslizando pelo umbigo infernal

Mais uma vez explorada e sentida, moves o pior dos mares numa profunda nostalgia...

domingo, 4 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Visão Perturbada

A tua face na lágrima de um cego,
desprotegido e inocente,
encostado ao teu lindo nome,
escrito numa parede fria e suja,
gasta pelo tempo que não viveu,
o cego toca a sua gaita de beiços.

Notas agudas de tristeza, notas graves de ansiedade. Pedaços de soluços...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Apenas um Pedaço

Pensou em desertar, uma e outra vez
Fugir ao beicinho era o mais, correcto
Mas não conseguiu e deixou-se, contemplar
Estava rendido ao mais que tudo, doce
O tom de pele era óbvio, tímido
Tudo o que era até então, deixou de ser
Tornou-se claro o túnel perfeito, leveza interior
Levitando-se largo o cabo, outrora amarrado
Deixando apenas algo sentido, uma pétala
Perfumada e viva de cores, bonita
Uma peça do seu eu, pousada no alecrim.

domingo, 21 de outubro de 2012

Lembrança

No brasume da fogueira
Destinada ao amor pirilampo
Ocupamos o espaço quente
Emocionado e cantando
Invades as minhas cordas vocais
Com um beijo carinhoso
Fecho os olhos sentindo
Tua mão no meu pescoço
Subindo ligeiramente quente
Minha voz interior canta mais alto
Atingindo o pico do vulcão
E tu minha doce, evaporas.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Acorrentado

As mãos que lavam a face
Da cor preta e branca aliviam
A superfície de um rosto esquecido
Há beira de um rio de mágoas 
Os olhos abrem e reconhecem
As linhas do sol que recebem
Reflectindo o nítido espaço que o envolve
Encarando mais uma vez a vida
Num rodeio alvoroço de penas
Regista-se o silêncio na concha
Da água que ele agora aconchega
Uma sólida imagem da solidão
Cujo conteúdo foi retirado
Pelo cento da sociedade humana
De um orgão musculoso chamado amor

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Whadark

No canto escuro, lugar onde te sinto por perto,
No canto gélido, lugar onde corrumpes corações,
Debaixo, ajoelhados ao teu encanto sombrio,
Debaixo do olhar enganador reparo em ti.
Debaixo, a tua sombra de multidão
Escurecendo as cores vivas das almas de uns tristes.
Tu, que apertas o pouco que resta,
Tu, que te alimentas da benevolência ímpar, 
Tu que dás a ilusão de algo inalcansável reforças a dor.
Na penumbra eu destaco-me, 
Na imensa mancha de alcatrão seco eu quebro-te,
Lanço e relanço olhares coloridos de um coração puro
Apagando o teu caminho com humildade límpida,
Não corrupta ao interno sabor da crueldade, 
Que invocas em nome da falsidade astuta.
- Deixai viver a morte contínua da qual me alimento...
Nunca estiveste tão perto de ser sacudida, 
Como agora, momento estrábico da tua essência.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Procurando um Beijo

É como criar um doce sem cólera que me desperte o ponto do prazer ao toque acerbo no paladar que intriga, que o amarelo cítrico se transforme em vermelho sólido numa tempestade divina repleta de calor e aconchego derretendo bolas de neve e sussurrando ao tempo; Encontra-me...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

#3

Por mais que apite a palavra teima em não sair, sopro, sopro, mas é inútil. A ventoinha tenta dar o ar de sua graça mas o rosado permanece.
Terei sempre o gelo para me reconfortar...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

#2

Tento ouvir a palavra "juízo" da minha voz, mas o que oiço são balões a rebentar...

#1

Caminho pela estrada escura e fria enquanto o mundo gira, o desvio é incerto como as palavras que sussurram pelos sonhos. O passeio torna-se agora claro como o calor que sai da minha boca.
O oceano esconde-se cá dentro e teima em não sair, deixem-me navegar...


domingo, 30 de setembro de 2012

Doce Rebuçado

A agonia deixa-me o sangue a ferver, impulsionado pela má gestão de sentimentos que se perdem agora na vastidão do negro, do frio, da alma. Sinto-me invadido pela influência da tua sombra, pela crueldade dos mortais, pela ansiedade dos fracos em tentarem curar a ressaca da vida. Quero libertar-me de ti, quero sentir a bondade do humilde, do justo, da liberdade, não quero ser o teu doce prisioneiro.
Deixa-me sair, tira-me as algemas ferrugentas destas mãos gastas, das pernas já comidas pela imundice que cheiram a putrificado, esse teu combustível tão desejado que não trocas por nada reflecte neste teu covil miserável fomentado pelo desespero. 
Cicatrizes de um moribundo que já carece de forças, inapto para voltar ao mundo vê-se agora nas portas do teu corredor esperando pelo pior, o arrependimento fecha-lhe os olhos pela última vez recordando memórias de um espaço outrora conquistado. O panda perneta aproxima-se roçando pela ultima vez o seu lombo recheado de vermes, lançando-lhe um olhar de carinho e saudade, mas agora velho e gasto parte para o forno da sua cumplicidade.

O fumo de uma alma cremada intensifica-se naquele espaço, um incenso de corrupção e lealdade, quem me dera que tivesse sido eu...

Domingo #2













quarta-feira, 26 de setembro de 2012

À conversa com um Lobijovem #1

- Olá Lobijovem, tudo bem?
- Epá, não muito bem.
- Então, que aconteceu?
- Ontem no bar engatei uma jovem linda.
- Mas isso é muito bom, és jovem e tal!
- Pois, mas o pior foi quando me levou para o carro.
- Não me digas que tinha um revólver no porta luvas para te assaltar?
- Não, nada disso. O que se passou foi o seguinte, entrámos no carro dela e começamos com carícias, troca de olhares, depois ela mete a descoberto o ombro esquerdo, era o que estava mais perto e começo a ficar excitado pá...
- Conta, conta!
- Dou-lhe um beijinho no ombro, passo a mão por ali acima e deixo-a na sua face, que suave...
- E beijaste-a como nunca antes?
- Epá ya, foi bué intenso, o problema foi depois...
- Não me digas que era um transsexual?
- Não, não, se fosse dava logo com o cheiro. Como disse anteriormente, tinha a minha mão na face dela, e depois do beijo ela abre a camisa e mete uma mamoca de fora.
- Por falar em mamocas, já foste ver o novo remake do filme "Total Recall?"
- Epá não, porquê?
- Ouvi dizer que vai ter outra personagem com três mamocas e mais atraente que a outra.
- Isso é mesmo à frente, depois vejo.
- Mas tipo, ela ter mostrado uma mamoca é uma cena brutal!
- Pois, foi mesmo brutal, é que assim que ela mete a mamoca de fora eu excito-me de tal maneira que as minhas unhas enterraram-se no seu crânio...morreu logo.
- Haaaaa...

Lágrima Perdida

O sentido do norte ouve a máquina e dentro dela numa carruagem encontra-se uma Sombra, esta ouve uma campainha de bicicleta e vê um sorriso de uma criança. Algo passa-lhe no pensamento mas não consegue decifrar o quê, algo ofuscante como se de um acordar se tratasse.
A besta ruge agora e a energia que move as rodas do comboio produz um som semelhante ao seu batimento cardíaco, o som do desejo como um pêndulo de relógio dourado, suave como os seus lábios. Alguém a espera e uma brisa diz-lhe algo que a  deixa confusa fazendo sentir-se presa pelas correntes de ar que começam agora a confrontá-la, como pancadas secas no peito, mas ela não desiste, quer saber o porquê.
A campainha toca uma e mais uma vez e o céu outrora límpido começava agora a perder os sentidos e a tornar-se tenebroso fazendo com que o elemento se aproximasse dela, um furacão fazendo desaparecer tudo no seu caminho. A criança surge com um sorriso de inocência, mas a imagem torna-se rapidamente desfigurada, como uma tela de picasso triste e abstracto perdido numa cave de marfim.
O momento que os junta está agora presente a meio caminho, o Vento puxa a Sombra para si e diz-lhe que não a pode ter pois ela partiu, desacreditada olha para o Vento olhos nos olhos e pede-lhe para a ver, está incrédula.

Um feixe de luz solar ilumina a Sombra mostrando ao Vento o seu rosto, tons de fruta doce e límpida com pequenas partículas de recordações transformadas em lágrimas. A criança abraça o Vento e este despede-se com um grande sopro que a faz apanhar o rumo certo em direcção à luz, a luz de uma vida que deixou de existir. 

domingo, 16 de setembro de 2012

Dura

É a mensagem dos indignados, revoltados, pobres, fartos de papiros enfeitiçados com tinta nova que se deixam levar pela escrita antiga, a escrita da vergonha que passam dia após dia lambendo os selos e colando as cartas da mentira, da corrupção, da mecânica estruturada que parece não ter fim à vista. 
O Trol da oposição que tenta dar um jeitinho para lamber o chocolate que resta do fundo, um tacho com medida mas sem peso, o fundo imaginário do espaço que ocupamos neste pequeno universo, agora paralelo.
O Banana ganha asas e explora tudo à sua volta, levando consigo um cheiro fresco que enfeitiça os pobrezinhos e vira-os uns contra os outros, revoltados, magros...
A Cobaia é sempre a mesma que é exposta como um pedaço de carne num mercado negro, livre de impostos ou controlo da ASAE.
As memórias gordas ficaram para trás longe de todos, longe de tudo fechadas num cofre imaginário de um qualquer duende mágico. Pintam as paredes de cor negra, pálidos vestidos de figuras que são a sombra do país.

- Olá, eu sou o karma, estou confiante de que nos vamos entender a bom ritmo.

O stress paira na cabeça ao som de palavras em tom tranquilo, mas sem suor, sem lágrimas?

- Sintam a paz tranquila da minha consciência.

Dormes pouco com muito, nós não. Literalmente, ninguém te ouve...

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

No Jarro

Drop drop, caem gotas na poça da lama que se alastra pela cidade como zumbidos inalterados, os ferros erguidos suportam tudo mas tudo é insuportável e as vozes, os sussurros, as mantas, camadas de massa furtiva invadem as lajes.
O baloiço ruge com o peso da inocência resguardado por um chapéu sem cor, colado para sempre à espera que os elementos da vida o desgastem. A caneta que perdeu a tinta dá agora refúgio à cigarra, sedenta de enredos e respostas lá vai tocando a sua música, monótona, triste, um profundo eco estático.

Ding dong, espalhada por aí o seu toque aquece até os mais gélidos pensamentos, quando acompanhados pelas caras metades. O milho é mais que muito, diz o galo emproado de crista branca, velho e gasto.
A luz está verde e não é dos semáforos, mas sim dos vermes que percorrem as estradas de terra à procura de refúgio, os Melros invadem os céus de olhos em bico...mas que percebo eu de aves, o pé continua inchado.
A brisa da rainha chega à porta da colmeia e todos a aguardam no interior, uma nova era de produção em massa arrasa a concorrência, estranho seria o bezerro sem asas com um fato inapropriado e brincos de marfim, que caralhada.

O teste do amor, que merda é essa que tanto brilha no escuro? Pirilampo inalterado escorre pelo fundo partido espalhando o líquido florescente, é radioativo foda-se.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Por um Fio


Beata sucumbida de um rosto inacabado separa o fumo da carne seca e escura, mas a flor persiste no palco da peça triste com que se debate. Espreitem lá fora o ambiente quente que recruta os homens e o amor, esse vai com a flora revestida de ditos obscenos a cada língua que passa cheia de secura, implorando por água.
O direito à vida esconde-se por um fio, mas a ajuda tem um som distinto que só ele pode ouvir. O Amolador usa a sua Flauta de pã e provoca os céus com a melodia que irrita os Deuses mas que adormece a flor, como uma anestesia.
Como o cair de cada minuto numa hora de aflição o céu começa a libertar a sua fúria provocada e relâmpagos imortais, seguem o  Amolador que insiste nas suas notas de mel, e uma pinga de água, e outra, e outra, tocam na pequena flor, protegendo-a até à extinção do perigo.
Muitos perguntam porque foi ela poupada, lá ninguém sabe, nem o Moleiro sabe, nem vocês sabem, e os Deuses...esses ainda hoje olham para a Flauta de pã que os irritou, esperando ainda queimá-la numa tempestade odiosa, a bom proveito.


Mas eu sei...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vento

Cantas sem dentes e sopras sem língua, por mais abismado que pareça,  tu persegues o que desejas. Filas de classes sociais puxam por ti, espremem-te, sufocam-te, arrastam-te.
Todos te são estranhos e ainda assim levas com eles, transformam-te, moldam-te, usam-te como lhes convêm. Por mais um punhado de caracteres eles desenham-te o destino, esse alvo pouco convencional e bastante domesticado. 

Exige uma depuração de ti, do que te rodeia, do que te consome. Diz " BASTA " e liberta-te dessas toxinas uma vez mais.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Cavalheirismo, extinção?

Eu bem me esforço, no sentido de esforçar? Sim. Esforço por resistir e continuar a ter os meus princípios, um deles é continuar a ser cavalheiro.
Mas diabos me levem ao magma, hoje em dia são poucas as pessoas que reparam em tal qualidade, rara? Diria que sim.
Será que as pessoas estão de tal modo atarefadas com os seus problemas que não ligam puto ao "cavalheirismo" ?!
Bom, parece algo dramático, mas não dramatizem porque o cavalheirismo existe, sim, aquele tipo de "cota" com cabelo grisalho todo puxado para trás com uma bengala e chapéu e tal...não pá. Esse estereótipo do passado é isso mesmo, passado. 
Eu sem cabelo/bengala/chapéu, puto novo, consigo ser um cavalheiro do séc. XXI.
Às vezes lá soltam um sorriso, um espanto, acanham-se até, fico logo de peito cheio e tal. 

- Dança dança, dança dança!

Também acredito que as pessoas podem andar assustadas com toda a experiência de vida que tiveram, o não acreditarem que este ato nobre queria dizer isso mesmo.
Desconfiam logo? Talvez, sei lá eu, a verdade é que uma vez ou outra "aquele" olhar incomoda-me.
Epá, mas de vez em quando o "obrigado", o um "sorriso singelo", sabe mesmo bem pá. Isso sim, vale bem a pena, um gesto digno de memorizar para mais tarde recordar.

- Dança dança, dança dança!

Os tempos em constante mudança e com eles as pessoas também, algumas sensações de nostalgia por aí perdidos, pulos temporais sem olhar para trás.
Autênticos dejetos retidos no sistema para alguns, para outros, uma poia do passado que já lá vai. O que digo? 

Encontre a sua.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Miranumb

Hey, you there
Ho, me?
Yes, what´s your name?
My name is God
Hollycrap, am i dead?
No stupid...


Rio que corre, um cavalo salta nas horas mortas, descanso eterno.
Miragem torpedo no seio da malta, que memórias lindas escrevo num caderno.


Saber bem, a bem dizer
Pão quentinho, quero provar
Massa pingada, toca a fazer
Estrela marinha, vai pousar


Que queres tu se não te acompanho, estranho será dizer, vai para o diabo que te carregue.


Olhar em frente, ver-te partir
A bola salta, o vento chuta
Agora leva-te, sempre a sorrir
Desde nova, sempre astuta


Wreck this journal...yellow chicken.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma Presença

Não consigo ver a linha, aquela que separa o eu, do tu. Assim afirmas e os meus ouvidos escutam.
Unidos pelo ar, convertidos num sentimento de carácter espiritual ao qual nos soltamos. Viajando pelo subconsciente entre mundos alternativos, pândega de feixes luminosos.
Eco que surge de um denotar afirma-se empolgante, como um serviço universal de uma qualquer estação espacial. Espaço que o cérebro simula, acompanha, mas nada sobre os objectos distorcidos ao toque.
A direcção debita velocidade e por estranho que pareça, a tal linha começa agora a surgir, mas o eco afasta-se com rapidez e apercebo-me que já não o tenho, perdido.
O meio de comunicação começa agora a girar freneticamente perdendo a cor, vazio. 


Um papel pautado transformado em nada.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Vorzeyer

A luz ruiva que transcende, solta-se
Eléctrica e envolvente, perturba
Um puro salto bipolar nasce, de novo
Força inversa que desperta, acolhe


Estática que se ouve, pondera parar
Aproxima-se de todos, lentamente
Vasos de claridade penetram, estabelecidos
Tudo está pronto agora, completo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Segredo Submerso


A alvorada na Madeira apresentava-se fria, as mãos em tom escuro e gretadas abriam o bolso do casaco, de lá, tiraram um maço de tabaco e consequentemente, um cigarro. Que bem que lhe sabia.
O tempo estava agressivo mas ele não tinha medo, era um verdadeiro Lobo do Mar, sempre respeitou o caminho das ondas e a sua maré, mas hoje estava verdadeiramente agreste. O seu cuidado era a dobrar bem como a sua teimosia, unidos pela profissão e gosto pelo Mar. 
Pescarias do passado finalmente reunidas no presente, da sua mente. Todos os dias diferentes no seu todo, mas sempre com esperança e pensamento positivo.
A trinta e seis milhas da costa, Jaime chega ao destino no seu semi cabinado " Jaímito " de cinco metros e cinquenta. Um barco de madeira que apesar de ser um velho modelo ainda dava para o gasto, assim pensava Jaime...


- Jaímito, vamos apanhar uma boa teca de peixe, que dizes velho?


Jaime falava sempre com o barco, era o seu fiel amigo e companheiro. Muitas experiências vividas juntos, mas também muitas dificuldades passadas, a vida no Mar nunca foi fácil.
Jaime lançava agora a ancora e a bóia para dentro de água de forma a imobilizar o barco no sentido da corrente. Ajoelhado na proa, rezava a Deus pedindo que a pescaria fosse boa e que tudo corresse bem.


- Jaímito, é hoje, é hoje!


O pescador começava agora a engodar com sardinha de modo a atrair o peixe, de seguida sacava das canas de pesca e começava a colocar as montagens no fio. 
Foi feito o primeiro lançamento ao Mar. 


- Sabes Jaímito, se não fosses tu não tinha ninguém. Quando não estou contigo sinto-me muito só. Ontem fui à praça meter-me com a Joaquina, mas ela nem me ligou nenhuma, deve ser por causa daquele tipo novo que lá anda.


Jaime era um quarentão sem mulher ou filhos, a vida nunca lhe proporcionou nada além da pesca, desde pequeno que o pai lhe meteu o trabalho nas mãos e levava-o para o Mar, a mãe tratava de vender o peixe na praça. Era o sustento da família. 
Apesar de atrevido e humilde, nenhuma experiência tinha com as mulheres, era um campo novo em aberto, mas talvez se devesse há falta de tempo para dialogar e viver fora da pesca. Seu pai era muito rígido na profissão e não gostava que o filho perdesse tempo com coisas de miúdos. 
O mundo de Jaime, era fechado e duro.


- Elá, que grande safanão. Este é grande!


Jaime apanhava belos exemplares da mesma maneira que o pai lhe ensinara. Alfredo era o seu nome e além de pescador, era alcoólico. 
Começou a beber assim que iniciou a vida na pesca, bebia logo de manhã para enfrentar o frio e esquecer o que se passava na noite anterior à saída para o Mar. Havia dias em que o sustento era pouco e aliviava a sua frustração através de actos de violência em Alice, sua esposa e mãe de Jaime.
A sua violência passou de alguns dias, para todos os dias...


- O dia está a correr bem, Jaimito. A papá hoje vai ficar orgulhoso de nós.


Alfredo não estudou em nenhuma escola, sabia contar e mexer no dinheiro mas através de seus colegas de pesca que lhe ensinaram. Nunca frequentou uma escola pois veio de uma família pobre e sem recursos, mas desde cedo a sua agressividade dava-lhe um lugar longe da comunidade.
Mas no fundo não era esse o caminho que ele queria para Jaime, conseguiu com que o seu filho tirasse o ensino básico. 


- A tarde está a chegar ao fim, Jaimito, temos que ir embora, além disso já enchemos a caixa de peixe, e do bom.
A mamã até se vai passar com tanto peixe para amanhar, ai se vai!


Alice, era uma mãe muito dedicada, protegia Jaime da violência do seu marido e por consequência, era ela que sofria na pele. Ao contrário de Alfredo, Alice tinha alguns estudos e adorava ler, coisa que o seu marido achava um desperdício de tempo.


- Amanhã vamos fazer muito dinheiro Jaimito, olha, vou deixar algum de parte para te pintar e vais ser o barco mais elegante de todos.


De facto, Jaime tinha a caixa do barco cheia de pescado, fora um dia em grande apesar do mau tempo, mas este por vezes é benéfico. Depois de Jaime arrumar as coisas para começar a içar a âncora, fez-se um raio de luz. 
Quase como agraciado pela luz quente naquele momento, Jaime saca de um cigarro, acende-o e de seguida, tira uma garrafa de vinho tinto e abre-a dando um golo profundo. Agora sentado, contempla o brilho quente que penetra na sua pele fria, pálida, e fecha os olhos...




Jaime levanta-se e deixa-se cair para dentro de água, de súbito, este vê-se envolvido numa espécie de algas marinhas que o puxam com força para baixo e o vão sufocando ao mesmo tempo. A luz vai desaparecendo afastando-se cada vez mais do barco.


Jaime...Jaime...Vem...Vem...Mais perto...


Duas vozes um pouco turvas fazem-se agora ouvir, tristes, angustiadas, em sofrimento permanente.


Junta-te a nós...Vem...Filho..Vem...


Jaime chegou ao destino, não se via nada e ainda se encontrava apertado e sufocado, mas parado. De repente um foco de luz iluminava a água em tom escuro, esverdeado, baço.


Finalmente...Sim...Chegaste a nós...Querido...


Por baixo do pés de Jaime, duas figuras aproximavam-se cada vez mais nítidas apontando as mãos abertas para cima, como quem quer agarrar alguém.


ÉS TU, ÉS TU, JAMAIS PARTIRÁS IMUNE...


As figuras que Jaime vê são os pais, desfigurados, com correntes quebradas nos pulsos tentando agarrá-lo para o puxar. Jaime entra em pânico tentando soltar-se das algas para puder subir e escapar.


VAIS APODRECER AQUI CONNOSCO...JAMAIS PARTIRÁS...


As mãos de Alice e Alfredo agarram agora Jaime pelos pés, puxam-no para baixo começando a mordê-lo nas pernas, trincando e rasgando a carne de Jaime, como se de um grupo de piranhas se tratasse. Mas os gritos de Jaime não se ouvem lá em cima, nada o poderá ajudar...


- Socorro, socorr...soc...Jaimito...acabei de ter um pesadelo, porra foi só fechar os olhos por um momento e...porque não me acordaste, hein?? 
Vamos mas é embora...isso, vamos embora...


Jaime bebe mais um trago de vinho, ainda maior que o último que tinha tomado, acende um cigarro puxando com mais força o fumo para dentro dos seus pulmões e por fim soltando-o depois, com alívio.
Agora puxa a bóia e a ancora, mete-as a bordo e segue caminho para o porto de abrigo.


- Já se vê as luzes do porto Funchal, Jaimito, já estamos a chegar. O que terá a mãe feito para o jantar? Espero que seja carne.


Jaime chegava agora ao porto do Funchal, as gaivotas pairavam por cima do barco, famintas e curiosas como sempre. Alguns pescadores acenavam em gesto de saudação como é hábito entre eles.
Depois de amarrar o barco, Jaime descarrega o peixe numa caixa e mete-o num carrinho de mão dirigindo-se até ao seu triciclo, uma Vespa de caixa fechada.


- Boa noite Tózé, hoje tás ao serviço?
- É verdade, Jaime, hoje calhou-me a mim. Que trazes aí?
- Olha, apanhei uma teca hoje, até me dói os braços.
- Há valente! Foste ao norte?
- Sim, a vinte e três milhas.
- Deves ter apanhado mar furioso!
- Apanhei algum, mas sabes como é, ou vai ou racha, e o Jaimito está aí para durar.
- Pois, olha lá uma coisa, que é feito do teu pai, o Alfredo?
- Porque perguntas?
- Já não o vejo há uns dois meses, ele está bem? - Jaime fez uma pausa com olhos fixos no tio - Desde quando deu para te meteres na vida dos outros?
- Desculpa, Jaime, só perguntei por perguntar.
- Mete-te mas é na tua vida, até amanhã.


Tózé, ficou com cara de mal amado e ao mesmo tempo intrigado, não era costume Jaime responder naquele tom ao tio e este começou a questionar-se a si próprio o porquê daquela revolta. Tózé era o irmão de Alice e este já algum tempo que não sabia dela, já para não falar dos boatos sobre a vida familiar da irmã em que Alfredo lhe batia.
Mas agora decidiu averiguar, porque, instinto ou não, aquele olhar de Jaime e a sua resposta, foram decisivos.
Jaime metera a caixa do peixe na Vespa e seguira caminho para casa. 
Tózé fechou o armazém, pegou nas chaves do carro e seguiu Jaime. 


- Raios parta o homem, tinha que meter o nariz onde não é chamado...tio, pois sim...


Alice sempre fizera tudo para que, Tózé, não soubesse dos maus tratos que Alfredo lhe dava pois se soubesse, poderia matá-lo. Mas ela sabia que não poderia durar para sempre.


- Mãe, pai, cheguei. Vou só meter o peixe na arca e já cá venho para contar como foi o meu dia.


Nem mãe, nem pai, responderam. 


Tózé aproxima-se da casa, abre a porta da rua que estava encostada, pois Jaime estava carregado de peixe e nem tivera tempo de a fechar. Após ter entrado notou logo no cheiro nauseabundo que pairava no ar, era horrível, ao que teve que tapar o nariz com a sua própria mão.
Ao entrar na sala, reparou no sofá pequeno que estava à sua frente, mas de costas para ele, via o que parecia ser alguém. A proximidade não deixara dúvidas, era Alfredo com a sua cabeça completamente partida, quase que desfeita, todo ensanguentado com um martelo no seu colo. 
Tózé, afastava-se lentamente do corpo olhando em redor até que viu, a um canto, a sua irmã Alice, sentada numa cadeira imóvel como uma estátua.


- Irmã, o que é isto, o que aconteceu aqui?? Fala comigo, fala.


Alice, desde a noite a que assistira o filho a matar o pai à martelada, que não dizia nada, não se mexia, era Jaime que tratava dela, o trauma foi de tal maneira grande que a deixou imóvel até aquele momento.
Essa fora a última noite em que Alfredo lhe tocara, Jaime tinha então atingido o ponto de ebulição.


- Eu vou-te tirar daqui irmã, vamos sair já daqui.


Enquanto Tózé tentava levantar Alice, Jaime vinha sorrateiro pela sala, pegou no martelo que estava no colo do pai, ao aproximar-se, Alice tenta rumorejar algo ao irmão, mas era tarde demais. O sobrinho martelava, martelava na cabeça do tio até este cair inconsciente no chão, e morrera ali mesmo.
Alice, levantou-se e dirigiu-se à cozinha.


- Mãe, onde vais, a culpa não foi minha, ele não tinha nada que cá vir, estava tudo controlado...


Alice abriu a gaveta da cozinha e tirou de lá uma faca, de seguida, espetou-a no seu coração. Não aguentou mais terminando assim com a sua vida.
Jaime deixou cair o martelo no chão, ajoelhou-se e abraçou sua mãe com força, chorou durante horas agarrado a Alice.
A meio da noite, Jaime entrou na sua Vespa e dirigiu-se ao porto de abrigo, levava consigo a mais, um jerrican de cinco litros cheio de gasolina para o barco, mas não para abastece-lo.


- Vamos embora Jaimito, vamos fazer juntos uma última viagem.


Jaime navegava agora para Norte onde o mar estava revoltante, a noite estava ainda mais fria e nublada, as luzes do porto afastavam-se lentamente enquanto o vento batia na face. Um cigarro atrás de outro, um gole de vinho atrás de outro, e assim navegava durante algumas horas.


- Jaimito...chegámos, está na hora...


Jaime pega no jerrican e começa a espalhar a gasolina pelo interior do barco, da proa à popa.


- Sabes, foste o meu melhor amigo, Jaimito...adeus.


O filho que matou os pais e o tio, deita agora fogo ao barco e lança-se ao mar, emergindo, deitando todo o ar dos seu pulmões para fora, as suas últimas bolhas de ar, vendo a luz do fogo queimando Jaimito, desvanecendo...




FIM

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Margem Sul

Nascer do Sol ( clicar na foto para aumentar )



Pela Tarde Dentro