domingo, 23 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Dura
É a mensagem dos indignados, revoltados, pobres, fartos de papiros enfeitiçados com tinta nova que se deixam levar pela escrita antiga, a escrita da vergonha que passam dia após dia lambendo os selos e colando as cartas da mentira, da corrupção, da mecânica estruturada que parece não ter fim à vista.
O Trol da oposição que tenta dar um jeitinho para lamber o chocolate que resta do fundo, um tacho com medida mas sem peso, o fundo imaginário do espaço que ocupamos neste pequeno universo, agora paralelo.
O Banana ganha asas e explora tudo à sua volta, levando consigo um cheiro fresco que enfeitiça os pobrezinhos e vira-os uns contra os outros, revoltados, magros...
A Cobaia é sempre a mesma que é exposta como um pedaço de carne num mercado negro, livre de impostos ou controlo da ASAE.
As memórias gordas ficaram para trás longe de todos, longe de tudo fechadas num cofre imaginário de um qualquer duende mágico. Pintam as paredes de cor negra, pálidos vestidos de figuras que são a sombra do país.
- Olá, eu sou o karma, estou confiante de que nos vamos entender a bom ritmo.
O stress paira na cabeça ao som de palavras em tom tranquilo, mas sem suor, sem lágrimas?
- Sintam a paz tranquila da minha consciência.
Dormes pouco com muito, nós não. Literalmente, ninguém te ouve...
O Trol da oposição que tenta dar um jeitinho para lamber o chocolate que resta do fundo, um tacho com medida mas sem peso, o fundo imaginário do espaço que ocupamos neste pequeno universo, agora paralelo.
O Banana ganha asas e explora tudo à sua volta, levando consigo um cheiro fresco que enfeitiça os pobrezinhos e vira-os uns contra os outros, revoltados, magros...
A Cobaia é sempre a mesma que é exposta como um pedaço de carne num mercado negro, livre de impostos ou controlo da ASAE.
As memórias gordas ficaram para trás longe de todos, longe de tudo fechadas num cofre imaginário de um qualquer duende mágico. Pintam as paredes de cor negra, pálidos vestidos de figuras que são a sombra do país.
- Olá, eu sou o karma, estou confiante de que nos vamos entender a bom ritmo.
O stress paira na cabeça ao som de palavras em tom tranquilo, mas sem suor, sem lágrimas?
- Sintam a paz tranquila da minha consciência.
Dormes pouco com muito, nós não. Literalmente, ninguém te ouve...
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
No Jarro
Drop drop, caem gotas na poça da lama que se alastra pela cidade como zumbidos inalterados, os ferros erguidos suportam tudo mas tudo é insuportável e as vozes, os sussurros, as mantas, camadas de massa furtiva invadem as lajes.
O baloiço ruge com o peso da inocência resguardado por um chapéu sem cor, colado para sempre à espera que os elementos da vida o desgastem. A caneta que perdeu a tinta dá agora refúgio à cigarra, sedenta de enredos e respostas lá vai tocando a sua música, monótona, triste, um profundo eco estático.
Ding dong, espalhada por aí o seu toque aquece até os mais gélidos pensamentos, quando acompanhados pelas caras metades. O milho é mais que muito, diz o galo emproado de crista branca, velho e gasto.
A luz está verde e não é dos semáforos, mas sim dos vermes que percorrem as estradas de terra à procura de refúgio, os Melros invadem os céus de olhos em bico...mas que percebo eu de aves, o pé continua inchado.
A brisa da rainha chega à porta da colmeia e todos a aguardam no interior, uma nova era de produção em massa arrasa a concorrência, estranho seria o bezerro sem asas com um fato inapropriado e brincos de marfim, que caralhada.
O teste do amor, que merda é essa que tanto brilha no escuro? Pirilampo inalterado escorre pelo fundo partido espalhando o líquido florescente, é radioativo foda-se.
O baloiço ruge com o peso da inocência resguardado por um chapéu sem cor, colado para sempre à espera que os elementos da vida o desgastem. A caneta que perdeu a tinta dá agora refúgio à cigarra, sedenta de enredos e respostas lá vai tocando a sua música, monótona, triste, um profundo eco estático.
Ding dong, espalhada por aí o seu toque aquece até os mais gélidos pensamentos, quando acompanhados pelas caras metades. O milho é mais que muito, diz o galo emproado de crista branca, velho e gasto.
A luz está verde e não é dos semáforos, mas sim dos vermes que percorrem as estradas de terra à procura de refúgio, os Melros invadem os céus de olhos em bico...mas que percebo eu de aves, o pé continua inchado.
A brisa da rainha chega à porta da colmeia e todos a aguardam no interior, uma nova era de produção em massa arrasa a concorrência, estranho seria o bezerro sem asas com um fato inapropriado e brincos de marfim, que caralhada.
O teste do amor, que merda é essa que tanto brilha no escuro? Pirilampo inalterado escorre pelo fundo partido espalhando o líquido florescente, é radioativo foda-se.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Por um Fio
Beata sucumbida de um rosto inacabado separa o fumo da carne seca e escura, mas a flor persiste no palco da peça triste com que se debate. Espreitem lá fora o ambiente quente que recruta os homens e o amor, esse vai com a flora revestida de ditos obscenos a cada língua que passa cheia de secura, implorando por água.
O direito à vida esconde-se por um fio, mas a ajuda tem um som distinto que só ele pode ouvir. O Amolador usa a sua Flauta de pã e provoca os céus com a melodia que irrita os Deuses mas que adormece a flor, como uma anestesia.
Como o cair de cada minuto numa hora de aflição o céu começa a libertar a sua fúria provocada e relâmpagos imortais, seguem o Amolador que insiste nas suas notas de mel, e uma pinga de água, e outra, e outra, tocam na pequena flor, protegendo-a até à extinção do perigo.
Muitos perguntam porque foi ela poupada, lá ninguém sabe, nem o Moleiro sabe, nem vocês sabem, e os Deuses...esses ainda hoje olham para a Flauta de pã que os irritou, esperando ainda queimá-la numa tempestade odiosa, a bom proveito.
Mas eu sei...
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Vento
Cantas sem dentes e sopras sem língua, por mais abismado que pareça, tu persegues o que desejas. Filas de classes sociais puxam por ti, espremem-te, sufocam-te, arrastam-te.
Todos te são estranhos e ainda assim levas com eles, transformam-te, moldam-te, usam-te como lhes convêm. Por mais um punhado de caracteres eles desenham-te o destino, esse alvo pouco convencional e bastante domesticado.
Exige uma depuração de ti, do que te rodeia, do que te consome. Diz " BASTA " e liberta-te dessas toxinas uma vez mais.
Todos te são estranhos e ainda assim levas com eles, transformam-te, moldam-te, usam-te como lhes convêm. Por mais um punhado de caracteres eles desenham-te o destino, esse alvo pouco convencional e bastante domesticado.
Exige uma depuração de ti, do que te rodeia, do que te consome. Diz " BASTA " e liberta-te dessas toxinas uma vez mais.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Cavalheirismo, extinção?
Eu bem me esforço, no sentido de esforçar? Sim. Esforço por resistir e continuar a ter os meus princípios, um deles é continuar a ser cavalheiro.
Mas diabos me levem ao magma, hoje em dia são poucas as pessoas que reparam em tal qualidade, rara? Diria que sim.
Será que as pessoas estão de tal modo atarefadas com os seus problemas que não ligam puto ao "cavalheirismo" ?!
Bom, parece algo dramático, mas não dramatizem porque o cavalheirismo existe, sim, aquele tipo de "cota" com cabelo grisalho todo puxado para trás com uma bengala e chapéu e tal...não pá. Esse estereótipo do passado é isso mesmo, passado.
Eu sem cabelo/bengala/chapéu, puto novo, consigo ser um cavalheiro do séc. XXI.
Às vezes lá soltam um sorriso, um espanto, acanham-se até, fico logo de peito cheio e tal.
- Dança dança, dança dança!
Também acredito que as pessoas podem andar assustadas com toda a experiência de vida que tiveram, o não acreditarem que este ato nobre queria dizer isso mesmo.
Desconfiam logo? Talvez, sei lá eu, a verdade é que uma vez ou outra "aquele" olhar incomoda-me.
Epá, mas de vez em quando o "obrigado", o um "sorriso singelo", sabe mesmo bem pá. Isso sim, vale bem a pena, um gesto digno de memorizar para mais tarde recordar.
- Dança dança, dança dança!
Os tempos em constante mudança e com eles as pessoas também, algumas sensações de nostalgia por aí perdidos, pulos temporais sem olhar para trás.
Autênticos dejetos retidos no sistema para alguns, para outros, uma poia do passado que já lá vai. O que digo?
Encontre a sua.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Miranumb
Hey, you there
Ho, me?
Yes, what´s your name?
My name is God
Hollycrap, am i dead?
No stupid...
Rio que corre, um cavalo salta nas horas mortas, descanso eterno.
Miragem torpedo no seio da malta, que memórias lindas escrevo num caderno.
Saber bem, a bem dizer
Pão quentinho, quero provar
Massa pingada, toca a fazer
Estrela marinha, vai pousar
Que queres tu se não te acompanho, estranho será dizer, vai para o diabo que te carregue.
Olhar em frente, ver-te partir
A bola salta, o vento chuta
Agora leva-te, sempre a sorrir
Desde nova, sempre astuta
Wreck this journal...yellow chicken.
Ho, me?
Yes, what´s your name?
My name is God
Hollycrap, am i dead?
No stupid...
Rio que corre, um cavalo salta nas horas mortas, descanso eterno.
Miragem torpedo no seio da malta, que memórias lindas escrevo num caderno.
Saber bem, a bem dizer
Pão quentinho, quero provar
Massa pingada, toca a fazer
Estrela marinha, vai pousar
Que queres tu se não te acompanho, estranho será dizer, vai para o diabo que te carregue.
Olhar em frente, ver-te partir
A bola salta, o vento chuta
Agora leva-te, sempre a sorrir
Desde nova, sempre astuta
Wreck this journal...yellow chicken.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Uma Presença
Não consigo ver a linha, aquela que separa o eu, do tu. Assim afirmas e os meus ouvidos escutam.
Unidos pelo ar, convertidos num sentimento de carácter espiritual ao qual nos soltamos. Viajando pelo subconsciente entre mundos alternativos, pândega de feixes luminosos.
Eco que surge de um denotar afirma-se empolgante, como um serviço universal de uma qualquer estação espacial. Espaço que o cérebro simula, acompanha, mas nada sobre os objectos distorcidos ao toque.
A direcção debita velocidade e por estranho que pareça, a tal linha começa agora a surgir, mas o eco afasta-se com rapidez e apercebo-me que já não o tenho, perdido.
O meio de comunicação começa agora a girar freneticamente perdendo a cor, vazio.
Um papel pautado transformado em nada.
O meio de comunicação começa agora a girar freneticamente perdendo a cor, vazio.
Um papel pautado transformado em nada.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Vorzeyer
A luz ruiva que transcende, solta-se
Eléctrica e envolvente, perturba
Um puro salto bipolar nasce, de novo
Força inversa que desperta, acolhe
Estática que se ouve, pondera parar
Aproxima-se de todos, lentamente
Vasos de claridade penetram, estabelecidos
Tudo está pronto agora, completo
Eléctrica e envolvente, perturba
Um puro salto bipolar nasce, de novo
Força inversa que desperta, acolhe
Estática que se ouve, pondera parar
Aproxima-se de todos, lentamente
Vasos de claridade penetram, estabelecidos
Tudo está pronto agora, completo
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Segredo Submerso
O tempo estava agressivo mas ele não tinha medo, era um verdadeiro Lobo do Mar, sempre respeitou o caminho das ondas e a sua maré, mas hoje estava verdadeiramente agreste. O seu cuidado era a dobrar bem como a sua teimosia, unidos pela profissão e gosto pelo Mar.
Pescarias do passado finalmente reunidas no presente, da sua mente. Todos os dias diferentes no seu todo, mas sempre com esperança e pensamento positivo.
A trinta e seis milhas da costa, Jaime chega ao destino no seu semi cabinado " Jaímito " de cinco metros e cinquenta. Um barco de madeira que apesar de ser um velho modelo ainda dava para o gasto, assim pensava Jaime...
- Jaímito, vamos apanhar uma boa teca de peixe, que dizes velho?
Jaime falava sempre com o barco, era o seu fiel amigo e companheiro. Muitas experiências vividas juntos, mas também muitas dificuldades passadas, a vida no Mar nunca foi fácil.
Jaime lançava agora a ancora e a bóia para dentro de água de forma a imobilizar o barco no sentido da corrente. Ajoelhado na proa, rezava a Deus pedindo que a pescaria fosse boa e que tudo corresse bem.
- Jaímito, é hoje, é hoje!
O pescador começava agora a engodar com sardinha de modo a atrair o peixe, de seguida sacava das canas de pesca e começava a colocar as montagens no fio.
Foi feito o primeiro lançamento ao Mar.
- Sabes Jaímito, se não fosses tu não tinha ninguém. Quando não estou contigo sinto-me muito só. Ontem fui à praça meter-me com a Joaquina, mas ela nem me ligou nenhuma, deve ser por causa daquele tipo novo que lá anda.
Jaime era um quarentão sem mulher ou filhos, a vida nunca lhe proporcionou nada além da pesca, desde pequeno que o pai lhe meteu o trabalho nas mãos e levava-o para o Mar, a mãe tratava de vender o peixe na praça. Era o sustento da família.
Apesar de atrevido e humilde, nenhuma experiência tinha com as mulheres, era um campo novo em aberto, mas talvez se devesse há falta de tempo para dialogar e viver fora da pesca. Seu pai era muito rígido na profissão e não gostava que o filho perdesse tempo com coisas de miúdos.
O mundo de Jaime, era fechado e duro.
- Elá, que grande safanão. Este é grande!
Jaime apanhava belos exemplares da mesma maneira que o pai lhe ensinara. Alfredo era o seu nome e além de pescador, era alcoólico.
Começou a beber assim que iniciou a vida na pesca, bebia logo de manhã para enfrentar o frio e esquecer o que se passava na noite anterior à saída para o Mar. Havia dias em que o sustento era pouco e aliviava a sua frustração através de actos de violência em Alice, sua esposa e mãe de Jaime.
A sua violência passou de alguns dias, para todos os dias...
- O dia está a correr bem, Jaimito. A papá hoje vai ficar orgulhoso de nós.
Alfredo não estudou em nenhuma escola, sabia contar e mexer no dinheiro mas através de seus colegas de pesca que lhe ensinaram. Nunca frequentou uma escola pois veio de uma família pobre e sem recursos, mas desde cedo a sua agressividade dava-lhe um lugar longe da comunidade.
Mas no fundo não era esse o caminho que ele queria para Jaime, conseguiu com que o seu filho tirasse o ensino básico.
- A tarde está a chegar ao fim, Jaimito, temos que ir embora, além disso já enchemos a caixa de peixe, e do bom.
A mamã até se vai passar com tanto peixe para amanhar, ai se vai!
Alice, era uma mãe muito dedicada, protegia Jaime da violência do seu marido e por consequência, era ela que sofria na pele. Ao contrário de Alfredo, Alice tinha alguns estudos e adorava ler, coisa que o seu marido achava um desperdício de tempo.
- Amanhã vamos fazer muito dinheiro Jaimito, olha, vou deixar algum de parte para te pintar e vais ser o barco mais elegante de todos.
De facto, Jaime tinha a caixa do barco cheia de pescado, fora um dia em grande apesar do mau tempo, mas este por vezes é benéfico. Depois de Jaime arrumar as coisas para começar a içar a âncora, fez-se um raio de luz.
Quase como agraciado pela luz quente naquele momento, Jaime saca de um cigarro, acende-o e de seguida, tira uma garrafa de vinho tinto e abre-a dando um golo profundo. Agora sentado, contempla o brilho quente que penetra na sua pele fria, pálida, e fecha os olhos...
Jaime levanta-se e deixa-se cair para dentro de água, de súbito, este vê-se envolvido numa espécie de algas marinhas que o puxam com força para baixo e o vão sufocando ao mesmo tempo. A luz vai desaparecendo afastando-se cada vez mais do barco.
Jaime...Jaime...Vem...Vem...Mais perto...
Duas vozes um pouco turvas fazem-se agora ouvir, tristes, angustiadas, em sofrimento permanente.
Junta-te a nós...Vem...Filho..Vem...
Jaime chegou ao destino, não se via nada e ainda se encontrava apertado e sufocado, mas parado. De repente um foco de luz iluminava a água em tom escuro, esverdeado, baço.
Finalmente...Sim...Chegaste a nós...Querido...
Por baixo do pés de Jaime, duas figuras aproximavam-se cada vez mais nítidas apontando as mãos abertas para cima, como quem quer agarrar alguém.
ÉS TU, ÉS TU, JAMAIS PARTIRÁS IMUNE...
As figuras que Jaime vê são os pais, desfigurados, com correntes quebradas nos pulsos tentando agarrá-lo para o puxar. Jaime entra em pânico tentando soltar-se das algas para puder subir e escapar.
VAIS APODRECER AQUI CONNOSCO...JAMAIS PARTIRÁS...
As mãos de Alice e Alfredo agarram agora Jaime pelos pés, puxam-no para baixo começando a mordê-lo nas pernas, trincando e rasgando a carne de Jaime, como se de um grupo de piranhas se tratasse. Mas os gritos de Jaime não se ouvem lá em cima, nada o poderá ajudar...
- Socorro, socorr...soc...Jaimito...acabei de ter um pesadelo, porra foi só fechar os olhos por um momento e...porque não me acordaste, hein??
Vamos mas é embora...isso, vamos embora...
Jaime bebe mais um trago de vinho, ainda maior que o último que tinha tomado, acende um cigarro puxando com mais força o fumo para dentro dos seus pulmões e por fim soltando-o depois, com alívio.
Agora puxa a bóia e a ancora, mete-as a bordo e segue caminho para o porto de abrigo.
- Já se vê as luzes do porto Funchal, Jaimito, já estamos a chegar. O que terá a mãe feito para o jantar? Espero que seja carne.
Jaime chegava agora ao porto do Funchal, as gaivotas pairavam por cima do barco, famintas e curiosas como sempre. Alguns pescadores acenavam em gesto de saudação como é hábito entre eles.
Depois de amarrar o barco, Jaime descarrega o peixe numa caixa e mete-o num carrinho de mão dirigindo-se até ao seu triciclo, uma Vespa de caixa fechada.
- Boa noite Tózé, hoje tás ao serviço?
- É verdade, Jaime, hoje calhou-me a mim. Que trazes aí?
- Olha, apanhei uma teca hoje, até me dói os braços.
- Há valente! Foste ao norte?
- Sim, a vinte e três milhas.
- Deves ter apanhado mar furioso!
- Apanhei algum, mas sabes como é, ou vai ou racha, e o Jaimito está aí para durar.
- Pois, olha lá uma coisa, que é feito do teu pai, o Alfredo?
- Porque perguntas?
- Já não o vejo há uns dois meses, ele está bem? - Jaime fez uma pausa com olhos fixos no tio - Desde quando deu para te meteres na vida dos outros?
- Desculpa, Jaime, só perguntei por perguntar.
- Mete-te mas é na tua vida, até amanhã.
Tózé, ficou com cara de mal amado e ao mesmo tempo intrigado, não era costume Jaime responder naquele tom ao tio e este começou a questionar-se a si próprio o porquê daquela revolta. Tózé era o irmão de Alice e este já algum tempo que não sabia dela, já para não falar dos boatos sobre a vida familiar da irmã em que Alfredo lhe batia.
Mas agora decidiu averiguar, porque, instinto ou não, aquele olhar de Jaime e a sua resposta, foram decisivos.
Jaime metera a caixa do peixe na Vespa e seguira caminho para casa.
Tózé fechou o armazém, pegou nas chaves do carro e seguiu Jaime.
- Raios parta o homem, tinha que meter o nariz onde não é chamado...tio, pois sim...
Alice sempre fizera tudo para que, Tózé, não soubesse dos maus tratos que Alfredo lhe dava pois se soubesse, poderia matá-lo. Mas ela sabia que não poderia durar para sempre.
- Mãe, pai, cheguei. Vou só meter o peixe na arca e já cá venho para contar como foi o meu dia.
Nem mãe, nem pai, responderam.
Tózé aproxima-se da casa, abre a porta da rua que estava encostada, pois Jaime estava carregado de peixe e nem tivera tempo de a fechar. Após ter entrado notou logo no cheiro nauseabundo que pairava no ar, era horrível, ao que teve que tapar o nariz com a sua própria mão.
Ao entrar na sala, reparou no sofá pequeno que estava à sua frente, mas de costas para ele, via o que parecia ser alguém. A proximidade não deixara dúvidas, era Alfredo com a sua cabeça completamente partida, quase que desfeita, todo ensanguentado com um martelo no seu colo.
Tózé, afastava-se lentamente do corpo olhando em redor até que viu, a um canto, a sua irmã Alice, sentada numa cadeira imóvel como uma estátua.
- Irmã, o que é isto, o que aconteceu aqui?? Fala comigo, fala.
Alice, desde a noite a que assistira o filho a matar o pai à martelada, que não dizia nada, não se mexia, era Jaime que tratava dela, o trauma foi de tal maneira grande que a deixou imóvel até aquele momento.
Essa fora a última noite em que Alfredo lhe tocara, Jaime tinha então atingido o ponto de ebulição.
- Eu vou-te tirar daqui irmã, vamos sair já daqui.
Enquanto Tózé tentava levantar Alice, Jaime vinha sorrateiro pela sala, pegou no martelo que estava no colo do pai, ao aproximar-se, Alice tenta rumorejar algo ao irmão, mas era tarde demais. O sobrinho martelava, martelava na cabeça do tio até este cair inconsciente no chão, e morrera ali mesmo.
Alice, levantou-se e dirigiu-se à cozinha.
- Mãe, onde vais, a culpa não foi minha, ele não tinha nada que cá vir, estava tudo controlado...
Alice abriu a gaveta da cozinha e tirou de lá uma faca, de seguida, espetou-a no seu coração. Não aguentou mais terminando assim com a sua vida.
Jaime deixou cair o martelo no chão, ajoelhou-se e abraçou sua mãe com força, chorou durante horas agarrado a Alice.
A meio da noite, Jaime entrou na sua Vespa e dirigiu-se ao porto de abrigo, levava consigo a mais, um jerrican de cinco litros cheio de gasolina para o barco, mas não para abastece-lo.
- Vamos embora Jaimito, vamos fazer juntos uma última viagem.
Jaime navegava agora para Norte onde o mar estava revoltante, a noite estava ainda mais fria e nublada, as luzes do porto afastavam-se lentamente enquanto o vento batia na face. Um cigarro atrás de outro, um gole de vinho atrás de outro, e assim navegava durante algumas horas.
- Jaimito...chegámos, está na hora...
Jaime pega no jerrican e começa a espalhar a gasolina pelo interior do barco, da proa à popa.
- Sabes, foste o meu melhor amigo, Jaimito...adeus.
O filho que matou os pais e o tio, deita agora fogo ao barco e lança-se ao mar, emergindo, deitando todo o ar dos seu pulmões para fora, as suas últimas bolhas de ar, vendo a luz do fogo queimando Jaimito, desvanecendo...
FIM
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